
Relato by Mazinho
Quando fiz o levantamento do roteiro do Crazy Trip 2004, e as distâncias ficaram em 100, 60 e 60 km, o Ronei falou, "só 60 no segundo dia". Eu também achei que a proporção estava imperfeita, o ideal seria 90, 90 e 40, mas éramos reféns dos locais para pernoites, então não tínhamos o que fazer. Quem iria pensar que em pleno mês de julho iria chover por mais de um dia e justo na data escolhida para o Crazy Trip, só São Pedro mesmo. Quando a previsão do tempo começou alardear a chuva para os três dias em que aconteceriam o Crazy Trip, eu não acreditei, um dia talvez, mas os três, em pleno inverno, que é isso! Diferentemente do outros Crazy Trips, neste eu não iria pedalar, estaria indo de moto para poder prestar um apoio melhor aos participantes e também fazer um registro fotográfico mais abrangente. Para não enfrentar, de moto, o frio da madrugada do dia da saída, resolvi ir na véspera para Santo Antônio do Pinhal e lá pernoitar, desta forma poderia fazer os últimos quilômetros até Campos do Jordão na manhã seguinte. Sai de casa lá pelas 15 horas da quinta-feira, já meio atrasado no meu cronograma, pois pretendia ir por caminhos alternativos, segui para Nazaré Pta pela estrada do Rio Acima, desviando dos buracos e apreensivo, pois se furasse um pneu eu teria que contar apenas com o spray de espuma que levava, mas funcionaria?? Em Nazaré Pta segui pela Rodovia D. Pedro I, o tempo começava ficar nublado e ameaçar chover, será que ir por estrada de terra de Igaratá até São Francisco Xavier seria uma boa opção? Se chover iria complicar. Bom! Quando cheguei em Igaratá, não resisti e lá fui eu pelas encostas da Serra da Mantiqueira em direção a São Francisco Xavier. Foram 60 km de estradinhas muito gostosas e cheguei em São Francisco Xavier ao anoitecer, segui então rumo a Monteiro Lobato pela estrada de asfalto que liga estas duas cidades, sendo que foi nesta mesma estrada à 27 anos atrás, quando ainda era de terra, o palco de alguns acontecimentos dramáticos no meu primeiro Crazy Trip, na época uma simples e inocente viagem de bicicleta de Mairiporã à Delfim Moreira. Relembrando as aventuras já vividas cheguei em Monteiro Lobato e segui a SP50, a estrada velha para Campos do Jordão, a qual esperava ser tranqüila, mas começa então uma aventura quando alcanço um carro e logo em seguida encosta atrás uma outra moto, não estava gostando daquela situação, mas a velocidade do carro que ia a frente não me permitia ultrapassa-lo nas retas devido a pouca potência do motor da minha moto, pouco depois começa a forma uma fila de outros veículos, num ato meio arriscado, ultrapassei o carro em um local de pouca visibilidade, mas em que este diminuiu a velocidade. Minha folga foi bastante breve, logo a outra moto me alcançou, mas não ultrapassou, visto que era bastante conveniente seguir atrás, então reduzi bem a minha velocidade e o tal motociclista não teve escolha se não ultrapassar. Agora sim estava legal, com aquela moto indo a uns 30, 40 metros à frente eu tinha um campo de visão mais confortável. Ao começar subir a serra, sou alcançado por outros dois carros para os quais cedi passagem imediatamente, entretanto o motociclista que ia a frente não fez o mesmo e lá fui eu apreciando aquele espetáculo de perseguição, sem deixar de imaginar que se o tal motociclista caísse, muito provavelmente ia sobrar para mim. Foram vários quilômetros assim, até que as curvas da serra diminuíram e os carros ultrapassaram o motociclista e o espetáculo acabou. Cheguei inteiro em Santo Antônio do Pinhal e depois de umas indas e vindas pela cidade encontrei a pousada, liguei para o Anderson, para saber onde ele e a Eda estavam, pois eles também iriam para lá. Como ainda estavam em São Paulo, resolvi sair para jantar. No dia seguinte as esperanças de tempo bom foram por água abaixo, literalmente. Durante o café da manhã na pousada, onde estavam também uma porção de peregrinos do caminho da fé, vi uma garota sentada à mesa diante de uma porção de comprimidos, perguntei a ela se estes eram para as dores causadas pela caminhada, ela me olhou de forma meio estranha e começou a escrever no guardanapo. Pensei "Ela deve ser muda" mas ao ler a resposta "estou fazendo voto de silêncio" minha vontade de conversar com ela aumentou para saber qual o motivo deste voto, como era fazer tal coisa, mas me contive e apenas sorri para ela, mas um pensamento me veio a cabeça: cada louco com sua mania. E falando em loucos, onde estaria o Ronei e um ônibus cheio deles para pedalar debaixo de chuva em pleno inverno na Serra da Mantiqueira? Sai da pousada já todo plastificado, ou quase todo, pois sem botas
adequadas os meus pés iam com certeza ficar gelados. Subindo o restante da serra para
Campos do Jordão, com o Anderson, a Eda e o Adilson a bordo de um Land Rover Defender 110 A estrada para Campos do Jordão estava molhada e cheia de óleo na pista da direita, o que me obrigava a ir pela pista da esquerda sempre que possível. Chegando em Campos do Jordão fomos direto para o horto esperar o pessoal que tinha madrugado em São Paulo e ainda estava a bordo do buzão. Preparativos finais no horto enquanto esperávamos e lá pela nove e meia o ônibus chega, festa, abraços, caras de sono e apreensão diante do tempo ruim, mas depois de uma hora de preparação, os intrépidos bikers partem rumo ao desafio. Analisando agora a situação dá até um arrepio: eram 10:30h. chovia e seriam cem quilômetros a percorrer. Coisa de doido mesmo. O trecho do Parque Estadual de Campos do Jordão tinha trechos com bastante lama e piso escorregadio proporcionando algumas aquisições de terreno. A estrada só melhorou quando, depois de 14 km, saiu do parque. Foram quase duas horas só para percorrer este trecho. Os belos visuais da Serra da Mantiqueira estavam encobertos pela neblina, mas o pessoal ainda estava sorridente, nem parecia que ainda tinham 86 km pela frente. Na ponte que atravessa o ribeirão da Lavrinha, no km 36 do dia, a diferença de tempo entre o primeiro e o último do pelotão passava dos trinta minutos, mas estávamos perto do posto as margens da BR 457 no município de Delfim Moreira, onde tínhamos marcado um encontro com o ônibus, após a chegada do Komodo ( o carro de apoio) junto a mim ali na ponte, parti atrás do pessoal. Neste ínterim fiz uma estratégia de corte, ou seja, quem eu alcançasse antes do posto não teria condições de prosseguir na segunda metade do percurso deste primeiro dia e deveria ir com o ônibus para Passa Quatro. Vale lembrar que eu estava de moto, nas subidas e retas eu levava uma grande vantagem, mas nas descidas as coisas se igualavam, principalmente com os mais kamikases como o Claudião, Kleber e companhia, pena que não houve uma oportunidade de um racha moto x bike, hehehe. Cheguei no posto lá pelas 15:25h. e para minha triste surpresa o ônibus não estava lá. Alguma coisa tinha acontecido, pois o ônibus não levaria mais de quatro horas de Campos do Jordão até ali. Sem o que fazer, pois estávamos sem comunicação com o motorista do ônibus, o jeito era comer, dar uma limpada nas bikes e aguardar. Analisei a situação: faltavam 55 km, o caminho adiante só tendia a piorar em subidas e condições de piso, se o ônibus estivesse ali, com certeza eu teria tomado a decisão de todos irem com o mesmo para Passa Quatro. Uma hora e meia depois de eu ter chegado no posto, nada do ônibus aparecer. Vendo os integrantes do grupo dava para ver que todos tinham vontade de prosseguir, entretanto nem todos teriam condições de chegar, não antes da meia noite, se o carro de apoio comportasse pelo menos 2/3 do grupo, até que poderíamos tentar. Aqueles que tinham a certeza de conseguir chegar pedalando, ou pensavam ter, estavam ansiosos para partir, o jeito foi libera-los. Boa sorte pessoal! Logo estarei indo atrás de vocês. Eu estava angustiado, onde estaria aquele bendito ônibus? comecei então a pensar em alternativas, no carro de apoio não dava para levar aqueles que optaram em encerrar o primeiro dia ali e suas bikes, o jeito seria alugar uma van, as quais estavam disponíveis na cidade de Piquete ao pé da serra. Despachei o carro de apoio para tal cidade com o objetivo de negociar uma van e tentar cruzar com o ônibus e fiquei ali no posto junto com os demais aguardando. Uns quinze minutos depois o ônibus aparece e o motorista dá uma desculpa de que se perdeu em Piquete, me engana que eu gosto. Tudo resolvido era hora de ir atrás do pessoal que já estava a caminho, atrás de mim seguia o carro de apoio. A distração agora era imaginar onde eu iria alcança-los, com pouco mais de uma hora de vantagem e sendo que eu estava indo à uma média horária em torno dos 30 km/h e eles uns 12 km/h com parada, nosso encontro deveria ser dali una 25 km, mas acabei alcançando-os a pouco menos de 20 km, o que demostrava que eles já estavam bem cansados. As paradas estavam se tornando cada vez mais freqüentes, até que entramos no trecho mais critico, com subidas, que de tão enlameadas, quase não se parava em pé, até eu de moto tive dificuldades de subir, necessitando que a mesma fosse empurrada. Foi neste trecho que o carro de apoio nos alcançou e começamos a prestar um maior auxílio aos bikers. Eu por minha vez ia tentando auxiliar na iluminação com o farol da moto. Por fim chegamos ao início da descida da serra em direção a Passa Quatro, o que deveria ser um alivio, se tornou um desafio em um piso de pedras soltas e muita lama. Passa Quatro foi conquistada poucos minutos antes da 22h. por dez bikers cansados, enlameados e famintos, mas com gás suficiente para dar um sprint final com bravura e galhardia. É isso aí gente. Crazy Trip na veia.
Como o segundo dia seria "apenas" 60 km, poderíamos optar por sair mais tarde, pelo menos para aqueles que fizeram o percurso integral. Os que fizeram apenas a primeira parte resolveram sair mais cedo. Neste dia todos estavam no pedal, inclusive o Anderson e a Eda, que não pedalaram o primeiro dia por estarem adoentados. O trecho até Itamonte tinha uma serra com uma longa subidas, mas por sorte não a subiríamos toda, lá pelo km 5,5 seguiríamos por uma estradinha, que tinha sua entrada camuflada entre algumas casas, este detalhe impedia que surgisse alguma dúvida na direção a seguir, fazendo que aqueles que ali passassem, naturalmente seguisse a principal. Alcancei o segundo grupo no segundo quilômetro de subida, fui aproveitando o tempo bom para tirar fotos mais bonitas e depois avancei até a tal entradinha camuflada, o Luiz, que dirigia o jeep de apoio, veio junto. Como o grupo que vinha num bom ritmo, resolvi orientar o Luiz para seguir adiante e esperar uns 3 km depois, enquanto eu ficaria ali esperando o pessoal. Passados alguns minutos resolvi seguir também e me posicionar para tirar uma fotos, pois o local tinha belos visuais, mas quando estava manobrando a moto, tive a impressão de ouvir alguém chamar pelo meu nome, o estranho é que o som veio de trás da casa ao meu lado, direção que nada tinha a ver com o roteiro, pelo menos o certo. Quase não me importei, mas mesmo assim me virei e vi o Denis, que fazia parte do primeiro grupo que tinha saído a mais de duas horas, então fiquei sabendo que alguns tinham seguido pelo caminho errado, mas como isto? Pensei. No grupo havia três bikers com GPS e outros com planilhas, como isto foi acontecer? Bom! Como sempre, tem aqueles apressadinhos, que desprezam os guias e vão na sorte. O pior é que isto atrasou quase todos do primeiro grupo, que tentaram alcançar estes "perdidos" para avisa-los sem sucesso. Sobrou para mim, que tive que ir atrás. Subi um quilômetro, dois, três e nada de encontra-los, já estava em dúvida se havia realmente alguém perdido por ali, quando me deparei com os três (Ernesto, Wandi e Lu) retornando. Como não poderia de ser, levaram uma bronca e por causa deste fato estabeleceram uma regra para os próximos Crazy Trips, onde o uso de planilha ou GPS será obrigatório para todos. O jeito agora era recuperar o atraso, se eles não tivessem errado, todo o primeiro grupo já estariam em Itamonte. Poucos quilômetros depois encontro o Rogério com o cambio quebrado, obrigando-o a subir no carro de apoio. Nesta hora o tempo começa a virar, com nuvens negras avançando em nossa direção. Pô São Pedro! É inverno, época que chove pouco. Levei vários minutos para me plastificar, tira sapato, põe a calça impermeável, calça o sapato, veste a blusa, capacete e a droga da luva que não entra na minha mão que insiste em não abrir (para quem não sabe, tenho limitações de movimento em ambas as mãos, devido a um acidente de asa delta). Tudo pronto, agora chegou o momento de ativar o programa de pilotagem rápida de moto, e lá vou eu desembestado no encalço do grupo. A chuva nos alcança num bairro antes de Itamonte, passo pelos últimos do grupo, onde a Denise pede para levar a capa impermeável do irmão dela que estava na frente, coloco-a dobrada por dentro do meu impermeável e sigo debaixo do aguaceiro que começa a cair. Logo adiante percebo que aquele meu impermeável, não está tão impermeável assim, pois sinto a água gelada penetrar por vários lugares, será que é porque o impermeável tem apenas uns quinze anos. Resolvi vestir o impermeável do Denis, daí sim a coisa melhorou, pelo menos quanto a chuva que caia, pois a que estava no chão começou a deixar o piso bastante escorregadio e a coisa se complicou quando começou a decida para o subúrbio de Itamonte. Os pneus da moto, que nada eram apropriados para andar sobre aquele tipo de piso, me obrigaram a trazer a tona os milhares de quilômetros de experiência da minha época de treieiro (para quem não sabe, este é o nome de quem pratica fora-de-estrada com moto) e com muita apreensão cheguei finalmente nas ruas asfaltadas de Itamonte. Pouco mais adiante encontrei o pessoal da dianteira num bar, logo começa a chegar os que estavam atrás e trazendo muitas histórias da tal descida que não perdôo. A frente do bar virou uma oficina de bike com direito a reposição de peças, lavagem, etc. O Anderson e a Eda diante das condições do clima e da saúde retornam ao carro de apoio. Novamente o grupo se separou, seguindo em blocos, rumo ao centro de Itamonte e posteriormente a Fragária. A chuva que caiu deixou tudo com muito barro, dificultando o deslocamento do grupo. Poucos quilômetros depois de Itamonte a corrente da bike do Rogério o deixa na mão definitivamente, acontece que o carro de apoio tinha seguido na frente, para levar a bagagem do pessoal para a pousada, onde o ônibus não iria por impossibilidades técnicas. Por sorte o Rogério estava em boa forma e ia correndo e empurrando a bike. Antes da viagem eu tinha preparado uma corda para puxar eventuais pessoas que estivessem sofrendo nas subidas, mas esta corda estava no carro de apoio, o jeito foi seguir adiante em busca de um armazém que eu me recordava vagamente, haver no caminho, por sorte encontrei corda para comprar, voltei e resgatei o Rogério, levando-o até o tal armazém, onde ele aguardaria o carro de apoio voltar. Só uma coisa estava me deixando entristecido, pois uma das razões de eu ter vindo de moto, era para poder fazer um bom registro fotográfico, mas as condições climáticas e os problemas com os participantes estavam impedindo isto. Fui seguindo adiante alcançando os que iam a frente e também encontrar o carro de apoio que deveria estar voltando. Faltando uns 16 km para a pousada, alcancei o grupo que ia na frente, eles estavam, ainda, bastante animados, isto era bom, pois teriam pela frente a pior parte com subidas longas e forte, sem contar que começava a escurecer. Sem outra opção segui em frente ao encontro do carro de apoio, mas os quilômetros passavam e nada de cruzar com o mesmo. Alguns trechos das subidas estavam bastante precários e agora eu não tinha ninguém para ajudar, lembrando mais uma vez, que as minhas limitações de movimento, praticamente me impossibilitam de levantar uma moto caída, então o jeito era não cair. Bom! Enquanto eu estou com os dois pés sobre as pedaleiras dá para seguir o ditado "na dúvida dá gás" Chegando no bairro Campo Redondo, deparo-me com uma descida bastante enlameada, daquelas de dar medo, a garganta seca, o coração dispara, mas sem alternativa vou descendo, até que... ufa! Consegui, passo por Campo Redondo e nada de cruzar com o jeep de apoio, teria acontecido alguma coisa, estava apreensivo, pois o Anderson tinha dito que o jeep dele (o nosso carro de apoio) tinha tendência a escorregar sobre a lama e com os inúmeros precipícios a beira da estrada, isto se tornava uma história de terror. Faltando menos de três quilômetros para a pousada eis que me deparo com outra descida com lama da pior espécie, aquela que gruda no pneu, felizmente passeio pelo trecho ileso. naqueles últimos quilômetros antes da pousada uma agonia se apossou de mim, diante da idéia de ter que voltar de moto, por aquele caminho em ajuda aos bikers. Cheguei na pousada e encontrei o jeep de apoio lá, o Anderson não estava muito animado em voltar. Eu não sabia quantos, além do Rogério, estavam precisando do carro de apoio, o Defender teria condições de trazer uns oito bikers e bikes, entretanto o dono da pousada tinha uma pick-up cabine dupla, combinamos então dele ira até Campo Redondo e de lá trazer aqueles que necessitassem, enquanto eu e o Luiz iríamos resgatar o Rogério, que estava a uns 20 km atrás. Começava então um novo capitulo naquela história de terror, com o Anderson nos dizendo que não nos importássemos com o carro e que ficássemos com a mão na maçaneta e pulássemos do carro se preciso, eu e o Luiz saímos da pousada pela estradinha estreita e a beira de um precipício, com parcas árvores que com certeza não segurariam as duas toneladas do Komodo, em minha cabeça já me via rolando ribanceira abaixo, mesmo confiando na habilidade do Luiz ao volante não me sentia a vontade. A minha situação psicológica e emocional começava ficar insustentável, então resolvi apertar o botão do f...-se e comecei a me tranqüilizar, então pude ver que a imaginação cria mais medo que a própria realidade. Assim que passamos por Campo Redondo cruzamos com o pessoal da frente chegando, todos animados e com garra para chegar pedalando na pousada. Perguntaram se tínhamos cruzado com o Edu. Não! Não tínhamos cruzado com ele. Pronto só faltava esta, mais um perdido. Dei as orientações necessárias e seguimos no resgate. No começo da descida encontramos com outro grupinho, entre eles a Lu e o Bruno, paramos para orienta-los, nisto a Lu queria subir no carro, mas incentivei-a a continuar até Campo Redondo e lá ir com a pick-up da pousada, visto que faltava pouca subida e eu não sabia quantos, que ainda estavam pelo caminho poderiam necessitar de apoio devido a problemas mais sérios que apenas o cansaço. Durante a descida fomos encontrando os demais, parávamos para prestar auxilio, em alguns casos oferecemos faróis, pois ninguém esperava chegar à noite e alguns estavam sem farol, nesses encontros ficamos sabendo que além do Rogério, o Wandi também ficara pelo caminho, num barzinho a beira da estrada. Seguimos então para o resgate dos dois bikers. O Wandi estava enrolado em um cobertor que o dono do bar, que já tinha fechado, lhe emprestara. Ai o Wandi disse que um pessoal que passou por ali disseram ter um cara de bicicleta num bar lá atrás morrendo de frio, achei estranho isto, pois o bar em que o Rogério ficara era bem maior do que este que o Wandi estava e por certo, que lá se conseguiria uma ajuda se preciso. Ao chegarmos no bar em que eu tinha deixado o Rogério, a situação não era o que disseram ao Wandi, o Rogério esta com frio, mas o bar ainda estava aberto e cheio de gente, resgatados iniciamos a volta. Em vários trechos mais críticos percebi o Luiz ainda estava tenso com a situação do Komodo sobre aquele piso escorregadio, por minha vez me sentia tranqüilo, já confiava no carro e no motorista, mas não deixamos, eu e o Luiz, de passar para o Wandi e o Rogério os aspectos daquela tenebrosa situação, afinal não era justo eles não terem a mesma emoção, hehehehe. São e salvos chegamos na pousada as 20h. agora era só contar as histórias do dia e saborear a deliciosa janta.
O humor de São Pedro estava uma maravilha, o dia amanheceu um belo dia, assim como muitos madrugaram para sair mais cedo, lava-se bike, conserta-se corrente, ajustes aqui e ali nas sofridas bikes e o pessoal começa a partir as 8:20h. fiquei ajudando o Luiz, Anderson e a Eda a colocarem as bagagens no jeep, onde o Wandi também iria, pois a bike dele estava sem freio, saí lá pelas 9:15h. sem pressa nenhuma. A menos de um quilômetro da pousada encontrei a Lu, sentada a beira do caminho, devido a um tombo no dia anterior ela estava com muita dor no pulso e mesmo tentando não consegui seguir pedalando, então resolveu esperar o carro de apoio, deixei ela ali e fui aproveitando aquele belo dia, pois já tinha perdido mesmo a oportunidade de tirar umas fotos do pessoal na parte mais bonita do caminho. Com mais ou menos 10 km alcancei os últimos do grupo, Kleber, Denise e o Jun, passei por eles e parei logo adiante para tirar umas fotos, desliguei a moto e aguardei. Tiradas as fotos subi na moto, com o Kleber ao meu lado, e.... nada da moto pegar, que raios! A partida elétrica funcionava, mas nada do motor pegar, como tinha uma descida logo à frente empurrei a moto até lá. Depois de descer algumas dezena de metros e nada do motor pegar, parei para fazer uma checagem mais detalhada. Ao testar se havia corrente no cabo da vela, constatei que o problema era elétrico, então o Kleber perguntou se a moto tinha alarme, sim ela tinha e o módulo de desligamento remoto tinha ficado no chaveiro tomando chuva, com certeza era ai o problema. Sugeri ao Kleber que fosse em frente, pois eu iria esperar o carro de apoio. O que poderia ser feito? Bom! Comecei a desmontar o módulo do alarme e encontrei o interior cheio de água. Defeito constatado, restava tentar solucionar. Tirei a bateria, sequei-a, limpei os contatos e fiz uns teste e nada. A bateria já era. Nisto aparece um caboclo numa DT180 e ofereceu ajuda, mas ele por certo não teria uma bateria de lithium modelo CR-2450. Ops! Este número não me é estranho. Isso! O cateye usa uma bateria semelhante e como eu tinha um cateye instalado na moto, abri-o e a bateria era uma CR-2032, menor, lógico!, mas da mesma voltagem. Por sorte o contato no módulo do alarme era multi ajustável, aperta-se um pouco aqui e ali e a bateria fica firme, apreensivo fiz um teste na partida e nada, outro e nada. Mexi mais um pouco na bateria para reforçar o contato e tentei de novo e... o motor pegou, que alivio. Nesta hora o caboclo resolve me oferecer um terreno para comprar ali na região ou se eu sabia de alguém que pudesse querer, tentei me desvencilhar, mas ele insistia em dar o número do telefone para contato. Eu não tinha caneta, nem ele. Pensei "ufa! To livre" que nada, ai ele sugeriu ir até a casa dele, que ficava ali perto, e anotar em um papel. Como ele tinha ficado ali esperando eu solucionar o meu problema resolvi aceitar a sugestão e fiquei esperando, mas com uma vontade de ir embora. Só não fui com medo da moto pifar de novo logo adiante como castigo, uns dez minutos depois ele retorna com um papel, o qual me entrega. Bom se alguém quiser um terreno de uns 4 alqueires lá pelas bandas da Fragária e só procurar o Ricardo da Capivara, o telefone não sei, pois o papel sumiu. Com a moto funcionando de novo, segui no encalço do pessoal, mas com uma certa apreensão, pois a bateria do cateye era bem menor que a original do módulo, ficava então a dúvida: até quando iria agüentar?. Alcancei o pessoal subindo as serras, os belos visuais e o clima razoável ajudavam em boas fotos. Subindo, subindo, subindo, cada vez mais perto do topo da serra e o tempo começava a mudar. Uma neblina fria começava a ser vista á frente. Cheguei então diante de uma porteira de arame, como estava á frente de todos, resolvi ficar ali e fazer uma foto de cada participante passando pela porteira lateral, isto levou mais de meia hora. Parti quando o carro de apoio chegou. Ao me aproximar do topo da serra a neblina começou a molhar, na realidade se tornara uma garoa fina. Em meio a descida alcancei a Denise e o Adilson, nisto parei para colocar o impermeável, o que levou uns dez minutos e segui adiante. A serra acabou e fui seguindo pelo baixadão antes de Santo Antônio do Rio Grande. Comecei a estranhar por ainda não ter alcançado a Denise e o Adilson, "os dois estão andando forte" pensei. Avistei um grupo de bikers, ao alcança-los não vi a Denise e o Adilson entre eles, e nisto o Kleber veio logo perguntando sobre a sua esposa, a Denise, quando lhe respondi que não a tinha visto e pensei que estivesse na minha frente, ele ficou todo preocupado. O caminho não tinha como se perder e além do mais, o Adilson estava com GPS. Orientei o grupo a prosseguir e voltei em busca dos dois. Enquanto voltava, comecei a conjecturar o que poderia ter acontecido, daí lembrei-me de que tinha passado por uma cachoeira, por certo eles tinha ido até lá. Uns quilômetros depois encontrei os dois voltando e a minha suspeita se confirmara. Estava na cachoeira. Em Santo Antônio do Rio Grande, o pessoal foi para um bar afim de recuperar as energias, mas ainda restavam o carro de apoio e mais dois bikers, como estávamos fora do percurso tive que ficar de olho na esquina. Um bom tempo depois o restante do grupo aparece e com gritos e assobios chamamos eles. A pizza e o aconchego do bar estavam tão bom, que se tornava difícil retomar a pedalada. enquanto eu, Luiz, Anderson, Eda, Lu e Wandi, comíamos nossas pizzas os bikers partiram, indo por último, sem muita vontade, o Paulo e o Jun. Quando sai, uma meia hora depois esperava encontrar os dois já depois da serra que tinha adiante, mas alcancei-os ainda subindo a serra, passei por eles e fiquei a espera lá em cima. Foi ai que tomei a decisão de coloca-los no carro de apoio, pois faltavam ainda mais de 20 quilômetros e eram quase 15 horas, por certo que não chegariam de dia. Depois de muito trabalho colocamos as duas bikes em cima da land e seis pessoas dentro, sem contar as já duas bikes em cima e outras duas dentro, mais bagagens de 25 pessoas, sendo que o Jun foi na minha garupa. A chuva caia quase o tempo todo, o caminho cada vez mais enlameado e o frio aumentado, mas em compensação Visconde de Mauá ficava cada vez mais perto. Meu receio era encontrar outros bikers com dificuldades pela frente, pois o apoio estava lotado. Faltando uns dez quilômetros da chegada começamos alcançar o pessoal, por sorte eles estavam animados, mais a frente um grupo arrumando um pneu furado, mas o astral lá em cima, fomos em frente para descarregar e voltar. Visconde de Mauá estava cinza e muitos do grupo já tinham chegado, descarregamos o land e eu e o Luiz voltamos, cruzando com o pessoal fomos dando as últimas orientações, até cruzarmos com o Kleber e a Denise, os dois últimos, manobramos e emparelhamos com eles. A Denise até pensou em subir no carro, mas lhe falei que faltavam uns três quilômetros e incentivei ela a seguir pedalando, não seria legal ter nadado tanto e morrer na praia, valentemente ela prosseguiu, chegando em Visconde de Mauá pouco depois das 17 horas. Um banho quente, uma lavagem básica nas bikes, um pastel ou um prato de comida caseira, foram os últimos acontecimentos antes de embarcarem no busão e voltarem para sampa. Eu por minha vez resolvi ficar por lá até o dia seguinte, não queira enfrentar a volta em cima da moto em plena noite e debaixo de chuva. A esperança do dia seguinte estar com um tempo bom durou até os primeiros raios de sol, os quais eu não vi, pois um céu nublado entristecia o dia, sem ter o que fazer, arrumei as bagagens e parti. A estrada da serra estava bastante enlameada, por sorte não chovia. Meus planos de voltar para São Paulo por caminhos alternativos estavam cancelados, segui direto para via Dutra e por esta segui numa entediante jornada de retorno. |