Confluência 22º S 46º W
Espirito Santo do Dourado/MG

Fotos

Esse negócio de atingir um local onde cruza duas linhas imaginárias é totalmente inútil, sem propósito, uma coisa irracional. Entretanto são estas atitudes que mostram a capacidade dos seres humanos de imaginarem mundos e objetivos virtuais e lutarem para conquista-los, e isto é simplesmente maravilhoso.

No final de 2001 sai para uma expedição que passaria por diversas confluências, mas um problema físico me obrigou a abortar a viagem, o relato e fotos desta tentativa aqui.

No fim do ano de 2002 surgiu a oportunidade de buscar pela confluência 22º S 46º W, a qual fica à 6,5 km da cidade de Espirito Santo do Dourado, ao sul do estado de Minas Gerais. Consultando a carta topográfica da região, via-se que esta confluência ficava muito próxima a uma estrada, isto significava pouca dificuldade, então para que as coisas ficassem um pouco mais interessante resolvi ir até lá de Mountain Bike partindo de uma fazenda que um amigo meu tem no município de Silvianópolis/MG, localizada nas coordenadas W45 45' 30,62630'' e S22 03' 37,85298'', a apenas 26 km em linha reta da confluência, mas o caminho plotado no mapa indicava uma distância de aproximadamente 40 km.

Nesta jornada ia eu, Mazinho Bender, e minha amiga Thaís Becker, dois aficionados por aventuras, a qual começou já na ida para a tal fazenda, pois a chuva que caía na tarde do dia 25/12/2002, causava diversos acidentes na Rodovia Fernão Dias e nós quase nos envolvemos em um. Por sorte conseguimos ir mais rápido que a chuva e conseguimos chegar na fazenda minutos antes dela.

No dia seguinte partimos rumo a confluência as oito horas da manhã, por uma infeliz escolha resolvemos seguir por uma estrada abandonada, achando que iríamos economizar uma boa distância, mas foram cinco quilômetros de atoleiros, mato alto e caminho precário, os quais consumiram pouco mais de uma hora, por fim saímos na estrada principal rumo a Silvianópolis.

A estrada boa possibilitava uma boa performance e chegamos em Silvianópolis por volta das dez horas e paramos em um bar à beira de um belo lago que há nesta cidade. Conversando com o dono do bar sobre o que iríamos fazer ele achou loucura irmos e voltarmos no mesmo dia e nos aconselhou a dormir em uma outra cidade próxima a confluência, mas isto não estava em nossos planos. Perguntando a ele o caminho para Espirito Santo do Dourado, recebi uma indicação meio confusa e bastante diferente daquela que tinha plotado no mapa e inserido no GPS. Depois de um lanche rápido partimos e atravessamos a cidade de Silvianópolis, seguindo até a rodovia MG 179, quando chegamos no trevo desta, percebi que o caminho plotado no GPS, atravessava a rodovia, pelas indicações do dono do bar, deveríamos seguir a rodovia a direita por não sei quantos quilômetros, atravessando uma serra e então seguir por uma estrada de terra, neste instante decidi acreditar no GPS, mesmo sendo o caminho nele plotado, feito sobre um mapa de 32 anos atrás.

Atravessamos uma serra através de estradinhas de fazenda e chegamos num bairro rural chamado Passa Quatro, localizado à pouco menos de sete quilômetros de Espirito Santo do Dourado, chegando lá resolvemos almoçar e nos indicaram um lugar que era ao mesmo tempo bar, restaurante e açougue. Depois de um almoço caseiro seguimos para enfrentar a Serra da Jangada, pelas curvas de níveis da carta topográfica seriam mais de 400 metros de desnível, a estrada era larga e estava em boas condições, a inclinação da subida não era das mais fortes, apenas o calor estava incomodando um pouco. Dois quilômetros de subida e nos deparamos com uma bifurcação, a esquerda seguia a estrada boa e principal, por onde vieram diversos caminhões carregados de batatas, a direita seguia uma estradinha, a qual era a que estava plotada no GPS. A estrada principal não existia na época do feitio do mapa que eu tinha. Aqui entra um detalhe: não há mapas topográficos atualizados disponíveis, mas pensando bem, esta desatualização do mapa até que é interessante, pois há mais fatores desconhecidos. Depois de analisarmos a situação eu e a Thaís concluímos que ambas as estradas iam para o mesmo lugar, mas resolvemos seguir a da direita, por dois motivos: era mais tranqüila e era uma via que o mapa indicava como certa. Mais três quilômetros e chegamos no alto da serra, uns dois quilômetros depois encontramos a estrada principal de novo e por ela agora seguimos.

Encontramos um barzinho a menos de cinco quilômetros da confluência, paramos para tomarmos um refrigerante. Foi aí que me lembrei de já ter estado em um outra parte desta serra, mais ao norte num lugar chamado Pedra do Navio, como já tínhamos pedalado 47 km, e a idéia de voltar pelo mesmo caminho não me agradava, resolvi consultar com os freqüentadores do tal barzinho sobre esta opção de caminho, pois ao norte da confluência eu não tinha o mapa da região. Pelas informações recebidas estávamos a menos de vinte quilômetros da tal Pedra do Navio e de lá, pelo que eu me lembrava, bastava descer a serra e pouco depois estaríamos na rodovia, aquela do trevo próximo a Silvianópolis. Partimos do barzinho ansiosos por atingir a confluência, aos poucos o símbolo da confluência entrou no visor do GPS, como seria o lugar? Daria para chegar no loca exato? As duvidas martelavam a cabeça. Chegamos diante de uma bifurcação a menos de um quilômetro da tão esperada confluência, a plotagem no GPS indicava a esquerda e assim fizemos, a estrada tinha florestas altas de ambos os lados e isso me desanimou, pois queria que a confluência estivesse em campo aberto com amplo visual. Cruzamos a longitude 46º e a confluência ficou a nossa direita, mais algumas centenas de metros e a mata a direita terminou abruptamente, dando lugar a uma pastagem, agora a confluência estava bem a nossa direita, a menos de 200 metros. Escondemos as bikes no meio do mato ao lado esquerdo da estrada, o qual não tinha cerca e fomos em direção a confluência, pulando uma cerca e atravessando o pasto. Eu ainda tinha a nítida impressão de que o local exato da confluência estava dentro da floresta, mas então chegamos em outra cerca e do outro lado desta uma estradinha e além desta um milharal, pulamos a cerca e ai notei que o local da confluência estava bem dentro do milharal.

Enquanto eu caminhava por entre os pés de milho, tentando encontrar o local exato a Thaís esperava na estradinha. O local exato estava á uns 20 metros para dentro do milharal, mas as fotos do local tiveram que ser feitas na tal estradinha, pois caso contrário só se veria milharal.

Metade da jornada estava feita, faltava a volta e já passava das 16 horas, o ciclocomputador da bike indicava 52 km, ou seja doze a mais do caminho plotado. Seguindo as indicações recebidas no barzinho pelo qual passamos, fomos em busca da Pedra do Navio. A Thaís já se mostrava bastante cansada, eu não estava muito diferente dela, mas estava bastante animado com a conquista e acho que isso me dava uma força extra. Dependíamos agora apenas de informações do pessoal do local, por sorte fomos encontrando com pessoas próximas aos locais das bifurcações e 12 quilômetros depois da confluência chegamos na Pedra do Navio, fizemos uma breve parada para fotos e comermos alguma coisa que levávamos. Iniciamos a descida da serra logo após sairmos da Pedra do Navio, foram cinco quilômetros alucinantes, no pé da serra deparamos com uma bifurcação e ninguém para sanar a nossa dúvida, sem muita certeza resolvi seguir a direita, mas uns dois quilômetros depois percebi que não era o caminho certo e voltamos para seguir a esquerda na bifurcação. Esta nova opção não me era menos desconhecida e poucos quilômetros depois outra bifurcação, a esquerda via-se uma subida e a direita não havia subida e a direção era mais adequada para onde deveríamos ir, optamos pela direita e pouco depois reconheci um local pelo qual já havia passado, ufa que alivio. Chegamos na rodovia logo adiante, eram quase 19 horas e a chuva começava a cair, já tínhamos pedalado 75 km e não sabíamos quanto tínhamos até Silvianópolis, mas de lá faltariam uns 20 km. Seguindo pelo acostamento da rodovia, a qual tinha pouco movimento de veículos, percebi que a Thaís estava bastante esgotada e eu tinha que diminuir meu ritmo natural de pedalar, para não me afastar dela. Com uns dez quilômetros de rodovia e no meio da segunda subida longa, resolvemos fazer uma parada, comi minhas últimas bananadas e fiquei sem comida, mas não me preocupei, pois a Thaís ainda tinha várias barra de cereais e logo estaríamos em Silvianópolis. Prosseguimos depois de uns quinze minutos de parada, terminamos aquela subida para logo em seguida depararmos com mais outra, não eram subidas íngremes, mas eram sempre longas. A noite já estava caindo quando avistamos Silvianópolis e assim que terminamos uma longa descida encontramos o trevo pelo qual passamos na ida, como que um milagre a Thaís resolveu pedalar forte, tirando forças de não sei onde. Neste instante percebi que as minhas forças, as quais eu achava estar ainda em alta, eram pura ilusão e na tentativa de seguir a Thaís, fui esgotando as últimas reservas e vi a Thaís se distanciando já na penumbra do anoitecer e sumir da minha visão, que já estava embaçada pelo esforço. Sem alternativas diminui o ritmo, mas percebi que já tinha entrado num estado hipoglicêmico e estava com dificuldade de me equilibrar sobre a bike, com muito cuidado parei no acostamento e deitei-me no chão. Devo ter ficado ali uns quinze minutos, sem forças para me levantar, esperava que a Thaís voltasse e uma daquelas barra de cereais que ela ainda tinha iam me repor as energias para chegar na cidade, mas nada dela aparecer. A muito custo consegui me levantar e continuar a pedalar, assim que entrei na cidade fui acometido de mais uma crise hipoglicêmica, parei junto a calçada e ali fiquei por vários minutos, já não tinha mais esperança de que a Thaís voltasse, minha dúvida agora era de onde ela estaria. O bar a beira do lago, pelo qual passamos na ida, ficava na parte baixa da cidade e eu não acreditava que o mesmo estivesse aberto a noite, onde estaria a minha amiga que me abandonou, snif, snif.

Depois que o meu corpo se canibalisou-se com algumas gramas dos próprios músculos tive forças para prosseguir, entrei na cidade e na primeira praça não encontrei a Thaís, fui seguindo o caminho feito na ida, em sentido contrário e na praça seguinte lá estava ela sentada ao lado de um trailer-lanchonete. O fato foi que, ao chegar na cidade, ela ficou me esperando pouco adiante do local que fiz minha segunda parada, como na ida eu tinha comentado com ela um outra opção para atravessar a cidade, ela achava que eu podia ter ido por esta. Bom! O que me interessava agora era comer, pedi dois X-tudo no trailer-lanchonete e os devorei acompanhado de dois refrigerantes.

Reabastecidos e com os ânimos renovados, começamos a pensar no último trecho, o mesmo que tínhamos feito na ida, porém descartando aquele trecho de estrada abandonada dentro da fazenda, mesmo que isto significasse alguns quilômetros a mais. Quando da ida tínhamos passado por uma longa e íngreme descida, o que significava agora uma longa e íngreme SUBIDA! Saquei o mapa e comecei a consultar uma alternativa. Havia uma mas, esta não estava plotada no GPS, o que de nada adiantaria, pois as baterias do mesmo já estavam quase esgotadas. Perguntei ao dono do trailer-lanchonete sobre o caminho que tinha visto no mapa, por coincidência ele o conhecia bem, mas foi enfático que a noite não conseguíramos segui-lo, mesmo assim tentou fazer um mapa num guardanapo, o qual ficou bastante estranho.

Partimos de Silvianópolis pouco antes das 22 horas. O jogo de baterias que estava no meu farol não funcionou, talvez por causa de duas queda o mesmo sofrera naquele dia, coloquei o jogo sobressalente e fiquei feliz ao vê-lo funcionar, mas cada jogo dura apenas uma hora, o farol da Thaís é menos potente e dura umas duas horas, se revezarmos no uso de ambos, poderemos ter quase três horas de iluminação, o que era o suficiente para chegarmos na fazenda, pelo menos era o que eu esperava. Havia chovido na região, mas felizmente a estrada principal estava sem barro. Quando chegamos na bifurcação onde deveríamos optar pelo mesmo caminho da ida, mais longo e com aquela famigerada subida, resolvemos enfrentar o desconhecido, e seguimos a direita, liguei o GPS na esperança de as baterias agüentarem por mais algum tempo, o mapa no guardanapo serviu por pouco tempo, logo as indicações já não batiam e quando chegamos em uma bifurcação mais significativa, consultei a carta topográfica e o GPS, decidi-me ir pela esquerda. Encontramos pela frente alguns trechos de barro e mais adiante um trecho com iluminação pública e logo em seguida nos deparamos com uma estrada larga, era a mesma que tínhamos utilizado na ida. O que fazer agora? Voltar os últimos dois quilômetros e seguir pelo desconhecido, que por certo era mais perto, ou seguir pelo conhecido e ter não se sabe quantos quilômetros a mais. Como naquele ponto da estrada principal já tínhamos desviado da subida que nos apavorava, ficamos com a segunda opção, pelo menos não correríamos o risco de nos perder. O restante do caminho foi tranqüilo e chegamos na fazenda pouco depois da meia-noite, tendo pedalado um total de 121 km.