Trilha de Paúba – Litoral Norte SP

por Mazinho Bender

Existe um ditado que diz "o que aqui fazemos aqui pagamos" é meus amigos, eu que já levei muita gente para as roubadas, desta vez fui levado a uma, mas se foi obra do destino, o tiro saiu pela culatra, pois eu adoro uma roubada.

Depois de muitos anos envolvido com o fora de estrada, tornei-me uma fonte de informações, assim quando algum amigo ou conhecido quer ir percorrer uma região por estradas de terra ou trilha sempre me consultam. Um dia o Said, da Athletic System, me liga e me pergunta se eu tinha uma planilha da trilha de Paúba, pois ele e uns amigos queriam percorre-la, bem eu conhecia, mas não tinha mais a planilha do Enduro das Montanhas do qual eu tinha feito o levantamento e a ultima vez que lá estive foi em 1987 e isto tinha sido a mais de seis anos, então ele me convenceu a guiá-los e foi assim que me meti em mais uma "roubada", mas desta vez eu fui um coadjuvante.

Marcamos a data e ficou combinado que o Said passaria em minha casa em Mairiporã logo pela manhã. No dia combinado me aprontei logo ao amanhecer, mas o Said só foi aparecer as dez e meia, então peguei o farol da bike prevendo que a noite ainda estaríamos pedalando.

No grupo estava além de mim e o Said um outro amigo dele e o Roberto Keller um amigo em comum dos tempos de Enduro de moto e ainda a namorada do Said e uma amiga, sendo que as duas tinham sido convidadas para passar o dia na praia, mal sabiam elas que a verdade era para elas levarem os carros do inicio da trilha até a praia de maresias que fica ao lado da praia de Paúba.

O caminho para chegar até onde pretendíamos começar a pedalar passava por diversas cidades sendo a ultima Salesópolis dali em diante seguiríamos pela estrada da Petrobras que vai até perto de Caraguatatuba, alias esta é a única estrada de terra que corta a serra do mar em toda a região e é assim chamada pois serve de acesso ao oleoduto da Petrobras. Quando entramos nesta estrada já era quase uma da tarde e a estrada não estava lá muito boa e ainda tínhamos que percorrer uns 25 ou 30 km até onde começa um ramal desta estrada que pelo desuso se transformou em trilha e é a partir desta que sai a trilha de Paúba.

Quando começamos a nos aproximar do local onde seria o inicio do tal ramal, notei que eu não me lembrava bem e assim que surgiu um dúvida pedi para o Said parar o carro para ver se era ali, mas ele estava ansioso demais e pulo do carro dizendo que ia começar a pedalar dali mesmo, bem ele era o chefe da expedição. Começamos a tirar as bikes dos carros e notei que o lugar era meio estranho e já quase com a certeza de que não seria ali o começo do ramal, bem! dito e feito, entramos na estradinha e uns 400 metros depois ela termina o jeito agora era retornar e continuar de bike procurando pela entrada certa, pois os carros já tinham ido embora.

O resultado foi que tivemos que pedalar por mais de 10 km pela estrada da Petrobras num trecho com muitas subidas até chegarmos no inicio do ramal que também tinha muitas subidas e estava tão destruído que mais empurrávamos que pedalávamos.

Eu sabia que a trilha começava onde o ramal fazia uma curva para a esquerda, então quando comecei a perceber que a trilha devia estar perto fui prestando atenção em toda curva para esquerda, mas nada de trilha, até que avistamos uma casa da qual eu não me lembrava e fui até lá para verificar, os outros ficaram na estrada me esperando, entretanto a casa estava abandonada e ao retornar passei por um espinheiro que me furou os dois pneus e eu só tinha uma câmara e no grupo apenas o amigo do Said é que tinham também e ele me emprestou a dele, isso já era quase cinco e meia e como era fim de inverno já estava escurecendo, resultado escureceu e não encontramos o inicio da trilha de Paúba, até aí nada demais, bastava seguir aquela estrada, que agora já não estava tão ruim quanto no começo, que chegaríamos na rio-santos, mas em Porto Novo ainda no município de Caraguatatuba e os carros estavam em Maresias o que significava uns 40 km de rio-santos.

A noite caiu forte um breu só. Eu tinha um mísero farol e o mais incrível é que o amigo do Said achou um pouco antes de escurecer uma pequena lanterna, daquelas que parecem uma caneta e isto era tudo que dispúnhamos de luz e a comida e água já tinham acabado faz tempo e a confiança em mim, por parte dos outros três também estava no fim, mas eu tinha certeza que não havia erro, era só seguir que sairíamos em Porto Novo, entretanto quando passamos ao lado de um sitio o Said insistiu em perguntar e o mais difícil foi fazer quem ali morava a nos atender, pareciam estar com medo e depois de muito insistir um rapaz saiu e confirmou ao Said tudo que já havia dito sobre o caminho, aproveitamos para encher as caramanholas e fomos embora.

Pouco depois fura o pneu da bike do Keller, naquele momento não fez muita diferença, pois mais empurrávamos do que pedalávamos, as paradas eram constantes e o cansaço faziam com que esta cada vez fossem mais freqüentes e longas, as horas foram passando e pouco antes das onze da noite avistamos lá embaixo as primeiras luzes do litoral, a estrada já tinha melhorado e havia luminosidade suficiente para irmos pedalando, mas como não tínhamos como arrumar o pneu da bike do Keller o ritimo era de caminhada e chegamos junto a rio-santos quase onze e meia por sorte tinha uma padaria bem ao lado e nos saciamos fartamente e começamos a pensar no próximo problema "como ir até Maresias" pedalando estava fora de cogitação.

Não tínhamos como fazer contato com as garotas, pois não saibamos onde exatamente elas ficariam sem contar que elas deviam estar preocupadas. A primeira tentativa foi o Said tentando convencer um motorista de caminhão a nos levar até lá, mas o cara pediu muito caro e o Said não aceitou, aí então apareceu uma Kombi com três rapazes que estavam indo para São Paulo pela rio-santos, eles pararam na padaria para tomar umas cervejas, pois tinham acabado de sair de um evento onde tinham trabalhado como segurança, e o Said os convenceu a nos dar carona, desmontamos as bikes e nos amontoamos na Kombi com os três rapazes no banco dianteiro.

A parte mais emocionante da "robada" estava por vir, pois quem conhece o trecho da rio-santos entre São Sebastião e maresias sabe do que estou falando, são curvas fechadas e despenhadeiros todo o tempo e qual não seria o teor alcóolico do motorista e o quanto ele poderia estar cansado, por sorte quando chegamos neste trecho perigoso ele diminui bastante a velocidade indo num confortável nível de segurança, mas o Said impaciente como ele só falou " o meu! não dá para ir mais rápido" o que eu e o Keller rebatemos com veemência "Nãaaaooo! Tá bom assim" e ganhamos a parada chegando em maresias sãos e salvos, mas de madrugada.

No outro dia, depois de acordar doidos e quase meio dia fomos aproveitar a praia e agüentar a gozações e reclamações da garotas.

Dois anos depois eu fiz esta trilha com um grupo de amigos dentro de um planejamento que não resultou em "roubada"