Trilha do "verde" – Cotia/SP

Por Mazinho Bender

Ano de 1989, eu estava praticando Mountain Bike a pouco menos de um ano, mas trilha não era novidade para mim, pois desde 1981 eu fazia trilha de moto, sendo que de 85 em diante esta tinha sido minha atividade profissional, onde eu organizava Enduros, o que me levava a explorar muitos lugares e agora que tinha conseguido unir duas paixões, trilha e bike, queria fazer de bike as trilhas que já fizera de moto.

Em cotia existe uma reserva florestal a qual é circundada por uma estradinha na maior parte de pouco uso que serve de divisa entre esta reserva e as propriedades particulares, esta região é conhecida pelos praticantes de fora de estrada com o "verde".

Consegui convencer o Beto, um amigo meu aqui de Mairiporã a ir junto fazer esta trilha, mas entusiasmados nós estendemos o convite a quem mais quisesse ir, assim formamos um grupo de quatro, eu; o Beto; Rodrigo, um garoto de 15 anos, filho do medico do Beto e o Salim, um biker que conheci em outros passeios.

No dia marcado, eu o Beto e o Rodrigo colocamos as bikes sobre um fusca e fomos até cotia onde encontramos com o Salim que apareceu com a bike amontoada sobre a traseira de uma Moto, dali fomos até o inicio da trilha onde deixamos o carro e a moto guardados junto a casa de um dos funcionários da reserva.

Apenas eu conhecia o caminho e a pergunta mais importante que me faziam era: quantos quilômetros tem estar trilha? Bem minha intenção era dar a volta completa na reserva, mas eu não tinha certeza de quanto quilômetros havia e para não assustar respondia: uns 35 km.

A primeira parte do caminho era composto pelo 1°, 2°, 3° e 4° "verde", isto porque a trilha era em partes que começava e terminava em estradas. A ""robada"" começou a acontecer quando na primeira parada, isto com menos de 10 km, o Salim tinha esquecido de encher as caramanholas e não tinha trazido nenhuma comida e o Rodrigo não tinha nem água nem comida. O complicador é que em todo o roteiro não há bar e muita poucas casas, ai a solução foi eu e o Beto dividirmos nossas comidas e água.

Quando terminamos o 3° "verde" vi que a coisa ia complicar então lembrei que o 4° "verde" cruzava por cima de um túnel ferroviário, mas eu não sabia onde era exatamente este lugar, se o encontrássemos poderíamos seguir ao lado da linha do trem até perto de Caucaia e de lá seguir pela trilha do "verde" até o local de onde começamos, infelizmente não encontrei nada e quando terminamos o 4° "verde" já tínhamos percorrido quase 40 km. Eu sabia que a estrada em que seguíamos tinha uma saída a esquerda que ia dar na Regis Bittencourt, rodovia que liga São Paulo a Curitiba, mas não era uma opção viável, pois retornar por aí era mais longe que prosseguir pela trilha do "verde", então segui em frente.

Eu conhecia o caminho, e sabia agora que ainda faltavam mais de 20 km de trilhas pesadas, não falei nada para os outros que já estavam desesperados, pois nem imaginavam onde estavam e já duvidavam do meu conhecimento sobre a região. Seguíamos por uma estrada que era pouco usada e eu procurava uma entrada a direita que deveria ser uma estradinha meio abandonada, a qual continuava a contornar a reserva, se não a encontrássemos íamos acabar indo para os lados de Juquitiba, cidade as margens da rodovia Regis Bittencourt e aí sim a ""robada"" seria grande. Por sorte encontrei-a, mas esta era a parte do ""verde"" que eu menos conhecia, por ali tinha eu passado um vez só e já fazia alguns anos, a regra era seguir sempre a direita, pois deste lado ficava a reserva a qual não tinha nenhuma estrada.

A estradinha abandonada pela qual seguíamos estava bem limpa e quando começávamos uma descida despencávamos feito doidos, após um destas descida eu, que estava na frente encontrei um bifurcação e parei para esperar os outros, mas nada deles aparecerem, então voltei e encontrei-os parado no fim de uma descida ajudando o Rodrigo que tinha caído e batido com a cabeça e o pescoço em uma arvore, foi aí que começou a segunda parte da ""robada"", pois deste momento em diante o Rodrigo não conseguia mais raciocinar direito, tínhamos que ficar instruindo-o a mudar de marcha e a frear e as vezes até a pedalar, consequentemente o ritimo caiu muito e já estávamos sem água a mais de uma hora, comida ainda tinha alguma coisa, por sorte encontramos uma casa onde nos abastecemos de água e o Rodrigo melhorou um pouco.

Faltando menos de uma hora para anoitecer demos de cara com a parede do ""verde"" uma subida de uns 30 metros que a cada passo para frente se volta dois, depois de muito custo consegui subir e voltei para ajudar o Rodrigo e tive que arrastar ele e a bike morro acima, quando cheguei em cima vi o Beto e o Salim deitados mais mortos que vivos e eu já não agüentava mais ter que arrastar o Rodrigo então joguei a bike dele no chão e disse "ele que se vire daqui para frente" peguei minha bike e fui embora, sabia que a trilha do trem estava perto e faltava menos de 10 km para chegarmos.

Cheguei na trilha do trem e enquanto os esperava comecei a regular o freio da bike, eles chegaram e eu os mandei seguir, visto que o caminho adiante não tinha muitas dificuldades em seguir, bastava manter-se sempre a direita, novamente estávamos com pouca água e já sem nenhuma comida e logo depois que eles se foram ouvi um barulho de água e para minha alegria era uma bica escondida ali perto, gritei tentando chamar os outros mas já estavam longe para me ouvir, enchi minhas caramanholas e fui em frente com o animo redobrado.

Como estávamos perto tive a idéia de ir até onde estava o carro e a moto e voltar de moto para pegar o Rodrigo, pois já estava começando a escurecer, assim ao alcançar o Rodrigo instrui-o para sempre seguir pela direita e quando chegasse junto a uma casa, que eu sabia que existia e era onde a trilha encontrava a estrada que ia até o local onde começamos o passeio, que ele ficasse esperando lá, mas duvidava que ele chegasse lá antes que eu pudesse estar lá com a moto, visto as condições dele.

Alcancei o beto e o Salim e expliquei o que eu tinha decidido, apertamos o ritimo e logo chegamos ao local do inicio, peguei a moto do Salim e disse para eles irem para Cotia e esperar na padaria, pois eu imaginava encontrar o Rodrigo ainda na trilha e de lá eu seguiria por outro caminho direto para Cotia. Quando eu cheguei na casa que ficava no fim da trilha o Rodrigo ainda não estava lá e as ultimas luzes do dia se esvaeciam-se e esperava encontra-lo nos próximos 2 km e aí começa a terceira parte da ""robada"", fui até onde tinha passado por ele e nada, pensei será que ele assustado voltou até a linha do trem. Fui até lá e nada, fui o caminho todo até onde deixamos os veículos e nada, voltei para a trilha e segui os caminhos que saiam para as esquerdas perguntando para as poucas pessoas que encontrava, até que uma delas disse que talvez ele tivesse chegado na Rodovia Raposo Tavares que ficava ali perto e de lá seguido para Cotia, então resolvi fazer este caminho e ia olhando para os ônibus pelos quais eu ultrapassava para ver se ele não estava em algum deles, infelizmente não achei o Rodrigo e resolvi ir até a padaria, pois o Beto e o Salim deviam estar preocupados, visto que já se passara mais de uma hora desde que nos separamos.

Quando cheguei na padaria o Salim pegou a moto dele e se mandou nos deixando na mão e com a bike para levarmos, bem eu e o Beto resolvemos voltar até a casa onde tínhamos deixado o carro para ver se o Rodrigo já estava lá, aí começa a quarta parte da ""robada"". No caminho para lá o fura o pneu do fusca e quando terminamos de troca-lo e vamos prosseguir o Beto percebe que há pouco combustível no tanque do carro, então optamos por seguir pela Raposo Tavares, o caminho que eu tinha feito de moto, e aproveitaríamos para abastecer, mas não encontramos posto algum até a entrada de Caucaia, bem agora a prioridade era achar um posto e depois ir procurar o Rodrigo, começamos a voltar para Cotia mas só encontrávamos postos fechados, pois já era mais de oito horas da noite, passamos por Cotia e seguimos em direção a São Paulo à procura de um posto, até que o tanque secou a menos de 10 km da marginal pinheiros, como o carro era a álcool colocamos a gasolina do reservatório de partida a frio no tanque e conseguimos chegar no bairro do Butantã e achar um posto aberto.

Falei para o Beto liga para a casa do Rodrigo para saber se ele tinha feito contato, o Beto disse: O que eu falo pro pai dele? Que nós deixamos o filho dele no meio do mato?

Não! Lógico que não, apenas diga que nos desencontramos dentro da cidade de Cotia, respondi eu.

Ligamos para a casa do Rodrigo, mas ele ainda não tinha dado noticias, tentamos não alarmar os pais dele e voltamos para Cotia, indo direto ao local de onde começamos o passeio e por sorte encontramos o Rodrigo lá.

Aconteceu o seguinte: quando o Rodrigo se viu sozinho e com a noite chegando, o medo o fez correr e ao chegar na casa onde deveria me esperar ele resolveu seguir por conta própria e acabou errando o caminho e chegando no sitio de uma velhinha que lhe deu água e comida, e foi nesse ínterim que nos desencontramos, depois ela indicou-lhe o caminho para o local de onde tínhamos começado o passeio e ele conseguiu chegar lá sozinho.

O Salim eu nunca mais vi, deixei a bike dele numa loja em São Paulo onde ele era cliente, o Rodrigo nunca mais pedalou, e o Beto. Bem! O Beto ainda é meu amigo.